segunda-feira, 4 de junho de 2012

SUÍCIDIO

Terapia Cognitiva e suícidio

Arnaldo Vicente e Ana Maria M. Serra

A TC vem-se demonstrando eficaz para uma ampla gama de transtornos emocionais, que inclui o suicídio. Sua eficácia na área da prevenção do suicídio reveste-se de especial relevância, tendo em vista os dados que demonstram um aumento na incidência de suicídio entre adultos e adolescentes. O preparo técnico do terapeuta cognitivo para o atendimento adequado ao paciente suicida é de fundamental importância,
especialmente em vista da imprevisibilidade da presença de comportamentos suicidas em pacientes depressivos que procuram ou são encaminhados para a psicoterapia. Quando é identificada, pelo terapeuta, a presença de ideação e comportamentos suicidas no paciente, todos os demais objetivos terapêuticos são negligenciados, concentrando-se a ação do terapeuta na intervenção direta sobre esses elementos.


Comportamentos Suicidas

Primeiramente, necessitamos distinguir entre os vários níveis de comportamentos suicidas, desde a ideação suicida, em que o paciente começa a contemplar o suicídio como uma solução viável para os seus problemas, até propriamente a tentativa de suicídio e o suicídio consumado.
Comportamentos suicidas podem apresentar-se disfarçadamente: decisões súbitas de, por exemplo, preparar um testamento; afirmações que denotam desesperança, como “minha vida não vai melhorar”;
idéias de que os demais estariam melhor com minha morte, como “sou um peso para todos”;idéias de fracasso em satisfazer as expectativas de outros, como “desapontei a todos” etc. Uma criança de 6 anos, gravemente deprimida após um acidente em que faleceram a mãe e o irmão menor, começou a expressar aos familiares o desejo de ir para o céu para rever a mãe e o irmão e, como eles, “ficar com os anjinhos”, fala que indicava ideação suicida, na tentativa de escapar da situação difícil em que se encontrava a família após a tragédia.
Deve-se notar que o desejo de morrer é inversamente proporcional ao desejo de comunicar a  intolerabilidade à situação de vida presente; o indivíduo que efetivamente deseja morrer, por ver a morte como a única solução para seus problemas, não comunica seu desejo, para evitar ser impedido.
Por outro lado, o indivíduo que comunica seu desejo de morrer pode estar comunicando, na realidade,
um pedido de ajuda.
Há ainda outras formas de avaliarmos a intencionalidade. Devemos inquirir o paciente a respeito de seu conhecimento sobre possíveis métodos que ele consideraria utilizar, sobre a letalidade dos métodos, sobre como teria acesso a esses métodos e sobre medidas que já pode haver empregado para investigar sobre os diferentes métodos e acessar estratégias instrumentais.
Essas informações, em conjunto, permitem ao terapeuta avaliar a gravidade da intenção suicida versus o desejo de comunicar a intenção como um pedido de ajuda.
A investigação direta da ideação e comportamento suicidas é recomendada, sem o uso de eufemismos e evitando inadvertidamente reforçar preconceitos sociais, culturais e religiosos contra o suicídio e o suicida. Alguns clínicos defendem a idéia de que abordar diretamente o suicídio, inclusive usando os termos suicídio” e “suicida”, pode induzir o paciente a considerar essa alternativa. Contudo, os estudos sugerem a improbabilidade dessa alternativa, e indicam ainda que a evitação do assunto ou a referência velada podem sugerir ao paciente que o terapeuta compartilha do preconceito social e cultural, e talvez até religioso, contra suicidas.