Sua incidência, segundo estudos recentes, vem aumentando de forma preocupante.
seguida, os modelos cognitivos específicos para as classes de transtornos mais freqüentemente observados, quais sejam, as fobias, a síndrome de pânico, o transtorno obsessivo-compulsivo,a ansiedade associada à saúde e hipocondria, e o transtorno de estresse pós-traumático.
O MODELO COGNITIVO BÁSICO DOS
TRANSTORNOS DE ANSIEDADE
Conforme vimos anteriormente, segundo o modelo cognitivo, a hipótese de vulnerabilidade cognitiva explicaria a instalação e manutenção dos transtornos emocionais. Essa hipótese propõe que o portador de um transtorno emocional tem uma tendência aumentada a cometer distorções ao processar o real interno e externo, além de uma rigidez que o levaria, uma vez cometida uma distorção, a resistir à consideração de
interpretações alternativas. Segundo o modelo cognitivo, o ponto central para a experiência subjetiva de ansiedade diante de um evento não seria o evento em si, mas a atribuição de um significado ameaçador ou perigoso ao evento pelo sujeito. No caso específico dos transtornos de ansiedade, a experiência de ansiedade decorreria de uma atribuição exagerada de ameaça ou perigo a eventos que outros poderiam processar como neutros. A valência emocional ou ansiogênica de um evento não é, portanto, intrínseca, mas
relativa e subjetiva, porquanto reflete a forma particular de representação desse evento por cada sujeito. Como exemplo, temos o agorafóbico, que experiencia ansiedade em espaços abertos, em decorrência de uma forma subjetiva de processar ou representar espaços abertos, os quais, para outros, não carregam o mesmo significado de risco e perigo. Ou o portador de síndrome de pânico,que experiencia uma ansiedade incontrolável diante de uma taquicardia ou arritmia, que ele interpreta como um sinal iminente de um ataque cardíaco,mas que outros processam de forma neutra ou, na maioria das vezes, nem notam.
Ao tratar o paciente ansioso, promovendo a re-estruturação e a flexibilidade cognitivas, o terapeuta cognitivo tem como meta levá-lo a buscar interpretações alternativas a suas interpretações exageradamente catastróficas; e, em paralelo, capacitá-lo a avaliar eventos com maior realismo,neutralizando o sentido de risco ou perigo exagerado que ele vem imprimindo ao seu real, interno e externo.
A hipótese de especificidade cognitiva Essa hipótese reflete a proposição de uma correspondência entre o conteúdo das cognições e a qualidade e intensidade da emoção, bem como a forma do comportamento de um indivíduo diante de uma situação. Dessa forma, seqüências típicas de pensamentos automáticos pré-conscientes ocasionariam emoções típicas; por exemplo, pensamentos que refletem perda (“não sou nada sem o emprego que perdi” ou “sem meu casamento, a vida não vale a pena”), falta de algo (“não tenho capacidade para conseguir um bom emprego” ou “não tenho o afeto de ninguém”), ou baixo autoconceito (“sou um fracasso” ou “sou incapaz”), estariam associados a emoções de depressão. Enquanto que pensamentos que refletem um sentido exagerado de vulnerabilidade frente ao real (“se perder esse emprego, jamais conseguirei outro” ou “não suportarei se vier a ser abandonado”, ou ainda, “dor de cabeça: e se eu
tiver um tumor cerebral?”) estariam associados à emoção de ansiedade. A hipótese de especificidade cognitiva é útil ao clínico, ao facilitar a identificação da cognição “quente”, que está associada à raiz da emoção, e que, desafiada, resultará na modulação da emoção pelo sujeito; ou, no caso particular dos transtornos de ansiedade, o desafio da cognição “quente” resultará na neutralização da experiência de ansiedade pelo sujeito ansioso.
O perfil cognitivo típico do portador de um transtorno de ansiedade. Com base na hipótese de especificidade cognitiva podemos postular um perfil cognitivo típico para o portador de um transtorno de
ansiedade, reunindo elementos que possibilitam a instalação e garantem a manutenção do quadro de ansiedade. Efetivamente, em termos de estruturas cognitivas, o ansioso tem tipicamente crenças disfuncionais focalizadas em ameaça física ou psicológica ao próprio indivíduo ou a seus outros significativos, que refletem um sentido aumentado de vulnerabilidade. Em relação ao modo de processamento cognitivo, o ansioso processa seletivamente sinais de ameaça, derivados de sua superestimação da própria vulnerabilidade, e descarta elementos contrários. Sua atenção autofocalizada aumenta, o que reflete a tentativa de controlar o estímulo ameaçador.
Seus pensamentos automáticos refletem uma negatividade ou pessimismo geral,focalizam em ameaça ou perigo a si ou a seus outros significativos, e são orientados para o futuro, em forma de pensamentos negativos antecipatórios, particularmente como perguntas do tipo “e se?” (“E se eu esquecer tudo na hora da prova?”, “e se eu tiver um ataque cardíaco?”, “e se eu ficar ansioso e me descontrolar no elevador?”, ou “e se eu for abandonado e não suportar a solidão?”). Suas cognições préconscientes refletem rigidez; seu pessimismo dá origem ao caráter excessivamente catastrófico de suas interpretações, complementado pela
rigidez, que o leva a “encalhar” nessa primeira interpretação e resistir ao reconhecimento de interpretações alternativas.
A avaliação do real pelo ansioso Paul Salkovskis (1996) propôs um modelo cognitivo de ansiedade que traduz, de forma criativa e eficiente, os fatores que interagem e determinam a intensidade da experiência de ansiedade pelo paciente, diante dos eventos que habitualmente desencadeiam sua resposta emocional – a ansiedade – e suas respostas comportamentais – as chamadas estratégias compensatórias.
Nesse modelo, quatro elementos, em sinergia, resultam na resposta de ansiedade, segundo a seguinte fórmula:
Este modelo é de extrema utilidade para explorarmos as características específicas ao quadro ansioso de cada paciente, para formularmos a conceituação cognitiva do caso, para planejarmos a intervenção e, finalmente, para promovermos o processo clínico. É recomendado ainda que seja apresentado ao paciente esse modelo, adaptado especificamente ao seu quadro clínico, como uma estratégia adicional facilitadora do progresso terapêutico. Fatores cognitivos de instalação e manutenção de quadros de ansiedade Fatores cognitivos, ou modos específicos de processamento de informação utilizados por sujeitos ansiosos, podem reforçar cognições de ameaça e a conseqüente resposta de ansiedade, concorrendo dessa forma para a manutenção do quadro de ansiedade, através do seguinte processo.
Diante de estímulos potencialmente ameaçadores, como situações, sensações ou pensamentos, o estímulo é processado pelo ansioso, segundo a equação acima apresentada, e a valência emocional do estímulo é avaliada, sendo, no caso do ansioso, freqüentemente superestimada. A superestimação do potencial de ameaça ou perigo do estímulo pelo indivíduo incitará a ativação de processos de atenção seletiva, que o levarão a concentrar sua atenção seletivamente nos elementos que confirmam sua expectativa de ameaça ou perigo e a descartar os elementos neutros ou os que, ao contrário, desconfirmam sua expectativa de risco
aumentado. A percepção, através da atenção seletiva, de risco aumentado incitará nova avaliação, novo aumento da atenção seletiva, e assim por diante, fechando o primeiro ciclo vicioso para a manutenção do quadro disfuncional de ansiedade.
Em paralelo, um segundo ciclo vicioso é acionado, refletido nas reações biológicas e fisiológicas associadas ao estado de ansiedade ativado em resposta ao estímulo; através da excitação, reações como taquicardia, tensão, respiração acelerada, tremor etc., podem ocorrer, que serão novamente avaliadas pelo indivíduo, através da equação Probabilidade de ocorrência do evento temido Grau de aversão do evento caso ocorra X Possibilidade estimada de enfrentamento Possibilidade estimada de resgate + acima, como ameaças adicionais, resultando no reforçamento de suas idéias de vulnerabilidade frente ao real, implicando em um novo aumento das reações biológicas e fisiológicas, e fechando o segundo ciclo vicioso. Finalmente, um terceiro ciclo vicioso é acionado, em que os chamados comportamentos de busca de segurança – evitação, fuga, controle excessivo, monitoramento permanente, alerta, neutralização etc. – aos quais o indivíduo recorre em resposta a sua avaliação catastrófica do estímulo inicial impedem a desconfirmação da atribuição exagerada de ameaça ou perigo ao estímulo e concorrem para a manutenção do quadro de ansiedade.