domingo, 13 de maio de 2012

TERAPIA COGNITIVA E DEPRESSÃO


TERAPIA COGNITIVA E DEPRESSÃO

Edela A. Nicoletti e Ana Maria M. Serra

O impacto da depressão na população geral tem sido grandemente subestimado. Em recente estudo promovido pelo Banco Mundial e pela Organização Mundial da Saúde, ficaram evidentes os devastadores efeitos da depressão. Nesse estudo, a depressão representou a quarta maior causa de incapacitação, sendo responsável por mais de 10% dos anos de incapacitação de indivíduos em todo o mundo. As projeções para as próximas décadas refletem um agravamento da presente situação, esperando-se que a depressão venha a representar, em 2020, a segunda maior causa de incapacitação, abaixo apenas das doenças
cardíacas. Atualmente, a depressão afeta cerca de 12% da população adulta (8% feminina e 4% masculina), contra apenas 3% no início do século XX. Estima-se que aproximadamente l5% da população será vítima de pelo menos um episódio depressivo a cada ano de sua vida adulta. Cerca de 75% das internações psiquiátricas têm episódios depressivos como causa principal ou secundária. 
Outros dados confirmam a gravidade dessa situação. As estatísticas, em âmbito mundial, nas três últimas décadas, indicam não apenas um aumento gradual da incidência de depressão na população em geral, mas, ao mesmo tempo, uma redução na idade de ocorrência do primeiro episódio depressivo, com aproximadamente 9% dos adolescentes apresentando um episódio de depressão severa antes dos 14 anos de idade.
Além disso, a depressão, para a maioria das pessoas, é uma enfermidade recorrente e crônica. Um estudo prospectivo aponta que 85% dos pacientes recuperados de um episódio depressivo sofreram pelo menos uma recorrência durante os 15 anos seguintes, e 58% deles apresentaram uma recorrência nos 10 anos seguintes à recuperação, mesmo tendo-se mantido estáveis durante os primeiros cinco anos após o término do tratamento inicial (Frank, 1991).
Esses dados apontam para a necessidade, entre outras medidas, da disponibilidade de planos eficazes de prevenção e tratamento da depressão.A TC vem-se demonstrando útil em ambos os aspectos, quais sejam, na prevenção da depressão e como uma forma de psicoterapia eficaz. Sua relevância se faz ainda maior se considerarmos que seu surgimento veio preencher uma grave lacuna, visto que os modelos comportamental e psicanalítico, anteriormente desenvolvidos, não se demonstraram particularmente eficazes no tratamento do transtorno depressivo.

Movido por preocupações teóricas, e em uma tentativa de expandir os limites da psicoterapia e de comprovar princípios psicanalíticos através do emprego da metodologia científica, Aaron Beck propôs um modelo de depressão inovador, o modelo cognitivo, no qual ele conceituou a depressão como um transtorno de processamento de informação, e não como um transtorno emocional.

Antidepressivos e Psicoterapia

A eficácia da TC no tratamento da depressão mostra-se relevante especialmente em vista do sucesso limitado do uso exclusivo dos antidepressivos. Primeiramente, os índices gerais de recaída e suicídio não se reduziram com o crescente emprego dos antidepressivos. Estima-se que entre 35 e 40% de portadores de depressão não respondem satisfatoriamente a antidepressivos, e parte dos que respondem satisfatoriamente
recusam-se a tomá-los ou descontinuam o tratamento devido aos efeitos colaterais. O depressivo tratado com farmacoterapia incorre em um problema de atribuição, tendendo a atribuir sua melhora ao medicamento e, dessa forma, reforçando a idéia de doença e de lócus de controle externo. Por outro lado, a melhora do paciente em psicoterapia vai além do simples alívio da depressão; ele “aprende” de sua experiência psicoterapêutica de maneira abrangente e desenvolve-se em várias áreas de sua experiência, processos que previnem novos episódios. Finalmente, antidepressivos não combatem a “desesperança”, um construto cognitivo e que constitui o fator determinante da ideação e comportamento suicidas.